Thiago Azevedo
Hoje acordei com as seguintes questões em minha mente: Porque a teologia da prosperidade dá tão certo em nosso território? E como fazer para que ela possa perder sua força?
Cheguei a conclusão de que se grita muito em termos de teologia, demonstrando bíblicamente que ela é equivocada e fruto de uma visão deturpada de promessas divinas, entretanto, o povo continua seguindo suas desvirtuações. Isso tem uma razão, não tão simples, mas uma boa razão, a esperança. Pense num país como o nosso, com todas as suas disparidades sociais, onde muitos tem nada e poucos tem tudo. Todas as nossas mazelas que enfrentamos todos os dias, isso faz com que a teologia da prosperidade não somente tenha força, mas seja praticamente a única resposta plausível para toda essa barbárie que vemos hoje.
Estou defendendo tal teologia? De forma alguma. Acredito que ela não tem fundamento e se baseia em uma falsa esperança que não se alimenta, apenas depreda o ser humano que é envolvido numa rede egoísta de fé, mas o que seria do homem sem a fé e é essa a força motriz que lhe dá sustentação. Por outro lado, na contra-mão disso tudo, por que perdemos tanto espaço para essa desvirtualização do sagrado? Justamente porque não conseguimos dar uma resposta satisfatória para essas mazelas, se a teologia da prosperidade avançou é justamente por nossa inabilidade em se aproximar do povo mais pobre e oprimido, de acessar as entranhas de seus problemas, resumindo, intelectualizamos a nossa fé a tal ponto que perdemos o foco de Jesus, onde ele fala aos simples e luta por eles. No fim, a nossa religiosidade protestante se tornou um artigo fino e de luxo, somente para os "eleitos" e quem são esses eleitos? Olhem para suas igrejas e vejam a sua maioria, do que é composta? E pensem, onde estão os pobres e miseráveis desse mundo?
Queremos ver exterminada da face da terra a teologia da prosperidade? Então devemos descer de nossos pedestais teológicos e nos aproximar dos oprimidos, devemos ressignificar nossa fé elitista para uma fé que seja acessível ao pobre e miserável. Fé esta que é marcada pela prática e não pelas divagações.
Devemos também não nos ater aos debates infindáveis tentendo convencer os pais da teologia da prosperidade local a se dobrarem ante a "verdadeira" teologia, antes devemos lutar para que não haja espaço para essa teologia nefasta se frutificar, como? Lutando por mais ética e justiça, distribuição de renda, lutar por um país mais ético, onde não haja mais a distribuição da pobreza, mas da riqueza. Que haja terra para todos morarem e tenham condições de sobreviver. Devemos mostrar pelos nossos atos que estamos sonhando junto com esses necessitados de Deus e também assim como queremos um país melhor, devemos querer uma igreja melhor, mais ética, mais justa e que se importe de verdade com o próximo, onde todos tem espaço e não apenas as castas clericais, que esta seja uma igreja movida pelo amor, amor este que provém de Deus.
Esses são os primeiros caminhos para a derrocada da teologia da prosperidade.
Paz e bem
sábado, 14 de novembro de 2009
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Tradição e Ressignificação
Thiago Azevedo
Tem coisas na vida que nos fazem criticar veementemente, mas que no fundo, nossa vida acaba sendo permeada por essas coisas que denunciamos, bem estou falando de rituais e tradições. Entretanto, devemos nos perguntar para que servem e o que significam tais coisas.
Quero me deter ao que diz sobre laço do passado com o presente e conjunto de atos e práticas, mas há algo nisso que é fundamental e essencial para que ambos tenham sentido, seu conteúdo. Esses passam a ser alvos de críticas justamente porque perdem no caminho sua razão de ser e passam a ser meros cumpridores de uma manutenção que não tem sentido, e quando isso ocorre é necessário ressignificar, dar nova forma.
Mas qual o primordial objetivo da tradição e do rito? O que faz serem prazerosos e não fardos duros de suportar? Creio que seja o amor. Saindo do ambito da igreja, o que me fez ver essa relação, foi os costumeiros almoços com minha filha e todos os dias tenho almoçado com ela, o que é um delicioso privilégio nos dias de hoje, e o que é agradável nisso tudo é justamente o fato dela absorver isso com responsabilidade, tanto que não almoça enquanto não chegar, ela diz à babá, vou esperar meu pai.
Vejo nisso uma tradição e um ritual se estabelecendo, entretanto não é nocivo justamente porque o que o motiva para existir é o fato de que nos amamos e desejamos estar juntos naquela agradável mesa, orando ao Papai do céu (ela é a oradora oficial do almoço), ouvi-la contar suas historinhas do seu marido Shrek e do seu amigo Burro. Esse momento não é um fardo, muito pelo contrário, me traz absoluta paz e motivação para voltar ao trabalho.
Então, indo para o âmbito eclesiástico, toda a tradição só tem sentido, quando ela é envolvida por um amor que a torna agradável, sem políticas, sem manobras, apenas paz e comunhão. Quando se perde essa essência, é necessário buscar e estabelecer novas tradições e novos rituais que nos conduzam para esse estado de graça que provém de Deus.
Falo dessa forma pois a tradição e os rituais contemporâneos para mim não possuem mais sentido, ou como diz Rubem Alves, a voz dos pastores ou líderes religiosos não me falam mais nada ao coração, porque só ouço neles a voz da tradição se repetindo, de ritual vazio de sentimento e amor, apenas uma mera manutenção para estabelecer poderes e dominações.
Esse estado de perda de referências quanto a tradição e o ritual eclesiástico fora muito positivo pra mim agora, pois pude encontrar-me com Deus em novos lagos, novos riachos, pude correr com Ele por sob a grama e brincarmos de amarelinha, como criança outra vez. Ressignifiquei minha condição com Deus, para encontrá-lo na beleza da poesia, das canções e principalmente na grandeza do amor. Sinto-me como minha filha, que me aguarda ansiosamente e só come quando eu estiver com ela, assim me sinto em relação a Deus, o aguardo ansiosamente, não num lugar frio e concreto como o templo, mas fico à porta do meu coração esperando ele chegar para ceiarmos e celebrarmos outra vez.
Paz e bem
Tem coisas na vida que nos fazem criticar veementemente, mas que no fundo, nossa vida acaba sendo permeada por essas coisas que denunciamos, bem estou falando de rituais e tradições. Entretanto, devemos nos perguntar para que servem e o que significam tais coisas.
Tradição. s.f. Transmissão de doutrinas, de lendas, de costumes etc., durante longo espaço de tempo, especialmente pela palavra: a tradição é o laço do passado com o presente; é tradição deles festejar os aniversários.
Transmissão oral, às vezes registrada por escrito, dos fatos ou das doutrinas religiosas.
Costume transmitido de geração a geração: as tradições de uma região.
Dir. Entrega material de um bem móvel, objeto de uma transferência de propriedade.
Ritual. adj. Relativo a ritos; conforme aos ritos: sacrifício ritual.
S.m. Livro que enumera as cerimônias e ritos que devem ser observados na prática de uma religião.
Conjunto desses atos e práticas; rito, cerimonial: ritual pagão.
Quero me deter ao que diz sobre laço do passado com o presente e conjunto de atos e práticas, mas há algo nisso que é fundamental e essencial para que ambos tenham sentido, seu conteúdo. Esses passam a ser alvos de críticas justamente porque perdem no caminho sua razão de ser e passam a ser meros cumpridores de uma manutenção que não tem sentido, e quando isso ocorre é necessário ressignificar, dar nova forma.
Mas qual o primordial objetivo da tradição e do rito? O que faz serem prazerosos e não fardos duros de suportar? Creio que seja o amor. Saindo do ambito da igreja, o que me fez ver essa relação, foi os costumeiros almoços com minha filha e todos os dias tenho almoçado com ela, o que é um delicioso privilégio nos dias de hoje, e o que é agradável nisso tudo é justamente o fato dela absorver isso com responsabilidade, tanto que não almoça enquanto não chegar, ela diz à babá, vou esperar meu pai.
Vejo nisso uma tradição e um ritual se estabelecendo, entretanto não é nocivo justamente porque o que o motiva para existir é o fato de que nos amamos e desejamos estar juntos naquela agradável mesa, orando ao Papai do céu (ela é a oradora oficial do almoço), ouvi-la contar suas historinhas do seu marido Shrek e do seu amigo Burro. Esse momento não é um fardo, muito pelo contrário, me traz absoluta paz e motivação para voltar ao trabalho.
Então, indo para o âmbito eclesiástico, toda a tradição só tem sentido, quando ela é envolvida por um amor que a torna agradável, sem políticas, sem manobras, apenas paz e comunhão. Quando se perde essa essência, é necessário buscar e estabelecer novas tradições e novos rituais que nos conduzam para esse estado de graça que provém de Deus.
Falo dessa forma pois a tradição e os rituais contemporâneos para mim não possuem mais sentido, ou como diz Rubem Alves, a voz dos pastores ou líderes religiosos não me falam mais nada ao coração, porque só ouço neles a voz da tradição se repetindo, de ritual vazio de sentimento e amor, apenas uma mera manutenção para estabelecer poderes e dominações.
Esse estado de perda de referências quanto a tradição e o ritual eclesiástico fora muito positivo pra mim agora, pois pude encontrar-me com Deus em novos lagos, novos riachos, pude correr com Ele por sob a grama e brincarmos de amarelinha, como criança outra vez. Ressignifiquei minha condição com Deus, para encontrá-lo na beleza da poesia, das canções e principalmente na grandeza do amor. Sinto-me como minha filha, que me aguarda ansiosamente e só come quando eu estiver com ela, assim me sinto em relação a Deus, o aguardo ansiosamente, não num lugar frio e concreto como o templo, mas fico à porta do meu coração esperando ele chegar para ceiarmos e celebrarmos outra vez.
Paz e bem
Cristianismo Pagão: Costumes Dominicais
Cuidado com aqueles que andam de toga larga. - Jesus Cristo
A cada domingo pela manhã mais de 300 milhões de protestantes vestem sua melhor roupa para assistir o culto da igreja.1[1] Mas ninguém parece questionar a razão disso. Milhares de pastores usam trajes especiais que os separam de suas congregações. E ninguém parece se preocupar com isso. Neste capítulo, vamos estudar a origem desse "vestir-se a rigor" para ir à igreja e as raízes das "vestes clericais".
A Roupa na Igreja
A prática de "vestir-se socialmente" para ir à igreja é um fenômeno relativamente recente. Começou pelo final do século XVIII com a Revolução Industrial e chegou a ser bem difundido nos meados do século XIX. Nessa época, "vestir-se bem" para eventos sociais era algo usual somente entre os ricos. A razão era simples. Apenas ricos aristocratas da sociedade poderiam comprar roupa bonita! As pessoas comuns somente tinham dois jogos de roupa: Roupa para trabalhar no campo e roupa menos andrajosa para se misturar com o povo.2[2]
"Vestir-se bem" para alguma ocasião era opção apenas para a nobreza rica.3[3] Na Europa medieval, até o século XVIII, "vestir-se bem" era a marca definitiva da classe social de alguém. Em países como a Inglaterra, as pessoas pobres eram proibidas de vestir o tipo de roupa que as pessoas "bem de vida" usavam.4[4]
Isto mudou com a invenção das grandes fábricas têxteis e o desenvolvimento da sociedade urbana.5[5] As roupas finas tornaram-se mais acessíveis às pessoas comuns. A classe média surgiu e seus membros começaram a rivalizar com a aristocracia invejosa. Pela primeira vez a classe média pode distinguir-se dos camponeses.6[6] Para demonstrar sua recente condição de ascensão social, eles passaram a exibir "roupas melhores" nos eventos sociais como os ricos faziam.7[7]
Alguns grupos de cristãos no fim do século XVIII e início do século XIX resistiram a esta tendência cultural. John Wesley escreveu contra o uso de roupa cara ou extravagante.8[8] O Metodista primitivo resistia tanto à idéia do uso de "roupas finas" na igreja que repreendia qualquer um que exibisse roupa cara nas reuniões. Os batistas primitivos também condenaram o uso de roupa fina, achavam que ela separava ricos de pobres.9[9]
Apesar desses protestos, o cristão quando podia vestia-se com roupa fina. A classe média prosperou, mudou-se para grandes mansões, construiu grandes edifícios de igreja e passou a usar roupa ainda mais fina.10[10] Com o desenvolvimento da cultura vitoriana de classe média, as igrejas começaram a atrair pessoas mais influentes da sociedade.11[11] Isto fez com que igrejas mais comuns como Metodistas, Batistas, etc., trabalhassem mais duro para manter seus próprios edifícios.12[12]
Tudo isso chegou a um ponto crítico quando em 1843, Horácio Bushnell, um pastor influente da Igreja Congregacional do Estado de Connecticut, publicou um texto chamado Taste and Fashion. Nele Bushnell argumentava que sofisticação e refinamento eram atributos divinos e que os cristãos precisavam demonstrá-los.13[13] Daí nasceu a idéia de que as pessoas precisavam "vestir-se bem" para poder honrar a Deus! A partir de então os membros da igreja adoravam em belos edifícios, exibindo sua roupa formal para honrar a Deus.14[14]
William Henry Foote, um Presbiteriano da Carolina do Norte, seguindo fielmente os passos de Bushnell, escreveu em 1846: "As pessoas que vão à igreja gostam de roupas finas" .15[
Esta regra simplesmente sedimentou o ritual do uso de roupa formal na igreja. Esta tendência foi tão poderosa que, entre 1850-60, mesmo os Metodistas que "resistiam à roupa formal" foram absorvidos pela moda. Até mesmo eles começaram a usar "roupa dominical" para ir à igreja.16[16]
A conseqüência de tudo isso, como virtualmente ocorreu com as demais práticas adotadas pela igreja, foi a adoção da roupa formal na igreja devido à influência do entorno cultural na prática cristã. Hoje, querido cristão, as pessoas vestem "a melhor roupa" para ir à igreja nas manhãs dominicais sem nem mesmo saber a razão. Mas agora você sabe de toda história que se esconde por trás desse costume estúpido.
Foi o resultado final dos esforços da classe média do século XIX em imitar seus contemporâneos da rica aristocracia, alardeando sua melhora de qualidade de vida pela roupa. (Este esforço também se relaciona à noção vitoriana de respeito). Em outras palavras, vestir "roupa dominical" é simplesmente um subproduto da cultura secular. Isto nada tem a ver com a Bíblia, com Jesus Cristo ou com o Espírito Santo!
Mas o Que há de Mal com a Roupa Social?
O quê dá tanta importância ao ato de "vestir-se bem" para ir à igreja? Concordo que esse tema não aborda uma questão candente. De fato, eu não me preocupo muito com o modo das pessoas se vestirem para ir à igreja. A questão candente surge com relação ao significado da "roupa fina" dentro da igreja.
Primeiramente, esta atitude reflete uma separação entre o secular e o sagrado. Acreditar que Deus se preocupa com a roupa fina que você coloca para "visitar-lhe" é uma violação do novo Pacto. Temos acesso à presença de Deus em todo momento e circunstâncias. Na verdade, será que Ele espera que nós, na condição de Seu povo, nos vistamos domingo pela manhã como se fôssemos para um concurso de beleza?
Em segundo lugar, vestir roupa chamativa e luxuosa aos domingos pela manhã transmite uma falsa mensagem: Aquela igreja é o lugar onde os cristãos escondem sua verdadeira cara, "vestem-se bem" para parecerem agradáveis e belos.17[17] Medite sobre estas coisas. Colocar sua "melhor roupa" aos domingos não é outra coisa senão criar uma impressão. Isso dá à casa de Deus todos os elementos de um teatro: Guarda-roupa, maquilagem, acessórios, luzes, porteiros, música especial, mestre de cerimônias, cargos, programa principal.18[18]
O hábito de usar "roupa dominical" na igreja viola a realidade de que a igreja é composta por pessoas reais com problemas de difícil solução. Podem ser pessoas reais envoltas em disputas conjugais, mas que após saírem do estacionamento e entrarem pela porta da igreja cobrem-se com grandes sorrisos!
O ato de vestir-se socialmente aos domingos oculta um problema básico subjacente. Fomenta a ilusão arrogante de que somos "bons" porque nos vestimos bem para Deus. É uma pretensão que desumaniza e constitui um falso testemunho diante do mundo.
É necessário reconhecer que como seres humanos decaídos são raras as vezes que estamos dispostos a mostrar aquilo que realmente somos. Quase sempre contamos com nossa performance ou aparência (roupa) para fazer com que os outros pensem coisas agradáveis a nosso respeito. Tudo isso é bem diferente da modéstia característica da igreja Primitiva.
Em terceiro lugar, "vestir-se socialmente" para ir à igreja é o mesmo que dar uma bofetada na simplicidade (marca registrada da Igreja Primitiva). Os cristãos do primeiro século não procuravam "vestir-se bem" para atender aos encontros da igreja. Eles se reuniam na simplicidade de suas casas. Não se vestiam para mostrar a que classe pertenciam. Na realidade, os primeiros cristãos faziam esforços concretos para mostrar seu absoluto desdém pelas distinções sociais.19[19]
Na igreja, todas as distinções sociais eram apagadas. Os primeiros cristãos sabiam que eles representavam uma nova espécie sobre este planeta. Por esta razão Tiago repreende os crentes que tratam melhor os santos ricos que os pobres. Ele repreende os ricos por vestir-se diferente dos pobres.20[20]
Todavia, muitos cristãos mantêm o falso conceito de que é "irreverente" usar roupa informal no culto aos domingos. Isso não difere da atitude dos escribas e fariseus ao acusarem o Senhor e Seus discípulos de "irreverência" por não seguirem as tradições de seus antepassados.21[21]
Em suma, dizer que o Senhor espera que seu povo use roupa fina ao reunir-se na igreja, é aumentar as Escrituras e falar aquilo que Deus não disse.22[22] Tal prática é mais uma tradição humana.
O Traje do Clero
Vejamos agora o desenvolvimento das vestes clericais. O clero cristão não se vestia diferente do povo comum até a chegada de Constantino.23[23]
Contrariamente ao que pensa a opinião pública, as vestes do clero, inclusive as "vestes eclesiásticas" da tradição litúrgica da "alta igreja", não tiveram origem nas vestes sacerdotais do AT. Tiveram origem na roupa secular do mundo greco-romano.24[24]
Clemente de Alexandria (150-215 d.C.) sustentava que o clero deveria vestir roupa melhor que as pessoas comuns. Já por este tempo, a liturgia da Igreja era considerada um evento formal. Clemente disse que a roupa do ministro deveria ser "simples" e "branca".25[25]
O clero usou a cor branca por muitos séculos. Parece que tal costume foi adotado do filósofo pagão Platão que escreveu que "a cor branca era a cor dos deuses ". Nesse aspecto tanto Clemente como Tertuliano (160-225) acreditavam que o colorido não se coadunava com Deus.26[26]
Com a chegada de Constantino, a distinção entre bispo, sacerdote e diácono se arraigou.27[27] Quando Constantino transladou sua corte para Bizâncio e a renomeou Constantinopla no ano 330 d.C., gradualmente a vestidura romana oficial foi adotada pelos sacerdotes e diáconos.28[28] Agora o clero era identificado por vestir-se com a roupa dos oficiais seculares.29[29]
Depois da conquista do Império Romano pelos Alemães a partir do século IV, a moda das vestes seculares mudou. A batina enfeitada dos romanos foi substituída pela túnica curta dos Godos. O clero, desejando diferenciar-se das pessoas comuns, continuou usando as antigas e arcaicas roupas romanas.30[30]
Os clérigos usavam estas antigas vestes durante o culto da igreja seguindo o modelo do ritual da corte secular.31[31] Quando os leigos adotaram o novo estilo de roupa, o clero acreditava que tal roupa era "mundana" e "bárbara". Eles preservaram o que julgavam ser uma veste "civilizada". Foi isso que ocorreu com as vestes clericais. Esta prática foi apoiada pelos teólogos daquele tempo. Por exemplo, Jerônimo (347-420) comentou que o clero jamais deveria entrar no santuário com roupa ordinária.32[32]
Do século V em diante, os bispos usavam a cor roxa.33[33] Nos séculos VI e VII as vestes do clero tornaram-se mais detalhadas e caras.34[34] Durante a Idade Média, a roupa adquiriu significados místicos e simbólicos.35[35] Vestes especiais surgiram por volta dos séculos VI e VII. E surgiu o costume de colocar sobre a roupa comum um jogo de vestes especiais na sacristia.36[36]
Durante os séculos VII e VIII as vestes foram aceitas como objetos sagrados herdados das batinas dos sacerdotes levíticos do Velho Testamento.37[37] (Foi uma racionalização para justificar a prática). Pelo século XII o clero começou a levar a batina para a rua, o que os distinguia das pessoas comuns.38[38]
As Mudanças da Reforma
Durante a reforma, o rompimento com a tradição e as vestimentas clericais foi lento e gradual.39[39] No lugar das vestes clericais tradicionais, os reformadores adotaram a batina negra dos estudantes.40[40] Esta batina também foi conhecida como batina do filósofo, sendo que os filósofos as utilizaram durante os séculos IV e V.41[41] A nova batina foi tão predominante que chegou a ser a vestimenta do pastor protestante.42[42]
O pastor luterano usava longas vestes pretas pelas ruas. Ele também usava um ruff ao redor do pescoço [guarnição de pano franzido usada como gola dos vestuários antigos] redondo que cresceu com o tempo. Cresceu tanto que antes do século XVII foi chamado de "ruff de fábrica".43[43] (O ruff ainda é usado em algumas igrejas luteranas hoje).
Todavia, é interessante o reformador preservar as vestes clericais. O pastor protestante usava-a ao administrar a Ceia do Senhor.44[44] Este ainda é o caso hoje na maioria das denominações protestantes. O pastor coloca sua batina clerical quando levanta o pão e o cálice. Nesse momento ele revela-se ou apresenta o que ele é verdadeiramente: Um sacerdote católico reformado!
Assim, a batina do pastor reformado simboliza a autoridade espiritual. O ato de colocar a batina negra revela seu poder espiritual de ministro.45[45] Esta tendência continuou através dos séculos
XVII e XVIII. Os pastores sempre usavam uma roupa escura, de preferência negra. (Cor tradicional
para os advogados e doutores durante o século XVI. Era a cor dos "especialistas").
A cor negra prontamente chegou a ser a cor de cada ministro em cada ramo da igreja.46[46] A batina negra eventualmente evoluiu a um "sobretudo" nos anos 1940-50. A manta foi posteriormente substituída por um "traje de passeio" do século XX.47[47]
No começo do século XIX, o clero em geral usava colarinho branco e gravata. De fato, era considerado altamente indecente um clérigo aparecer sem tal colarinho.48[48] Os pastores da igreja baixa (batistas, pentecostais, etc.) usavam colarinho e gravata. Os da alta (anglicanos, episcopais, luteranos, etc.) o colarinho clerical — muitas vezes chamado "coleira de cachorro".49[49]
A origem do colarinho clerical remonta a 1865. Não foi uma invenção católica como muitos acreditavam. Foi inventado pelos Anglicanos.50[50] Tradicionalmente, os sacerdotes dos séculos
XVIII e XIX usavam batinas negras (de corpo inteiro com colarinhos) sobre vestes brancas (às
vezes chamadas por alba).
Em outras palavras, eles usavam colarinhos negros com branco no centro. O colarinho clerical era uma versão mais simples e removível do outro. Foi inventado para que sacerdotes anglicanos ou católicos pudessem colocá-lo sobre a roupa de rua e serem vistos como "homens de Deus" em qualquer lugar!
Hoje é o traje escuro com batina que funciona como a vestimenta clerical da maioria dos pastores protestantes. Muitos pastores não saem sem este traje. Muitas vezes se vestem com essa roupagem para aparecer em eventos públicos não religiosos. Alguns pastores protestantes levam o colar clerical — para que ninguém se esqueça de que ele é "um homem de Deus".
As Vestes Clericais são Nocivas?
A roupa clerical é uma afronta aos princípios espirituais que governam a casa de Deus. Atinge o coração da igreja ao separar o povo de Deus ao meio: "Profissionais" e "não-profissionais".
Como o "vestir-se bem" para ir à igreja, a roupa clerical — seja ela a elaborada roupa do ministro da "alta igreja" ou a batina negra do pastor evangélico — está arraigada na cultura mundana. A veste distintiva do clero remonta ao século IV, quando o clero adotou o costume dos oficiais seculares romanos.
O Senhor Jesus e seus discípulos não sabiam nada sobre usar uma roupa especial para impressionar a Deus ou para distinguir-se do povo de Deus.51[51] Colocar uma roupa especial com propósitos religiosos foi uma característica dos escribas e fariseus.52[52] E nem o escriba nem o fariseu puderam escapar do olhar penetrante do Senhor quando disse, "cuidado com os mestres da Lei, pois eles gostam de caminhar com batinas ornadas, de ser saudados no mercado, de ocupar assentos importantes na sinagoga e o lugar de honra nos banquetes ".53[53]
Cuidado para que nenhum homem te corrompa por filosofias e mentiras que não levam a parte alguma, por tradições e normas humanas que não vem de Cristo. - Paulo de Tarso
Notas
1[1] Denominações como a Vineyard constituem exceções. Tais neodenominações possuem um estilo de adoração típico que inclui café e bolachas antes do serviço. Shorts e Camisetas são trajes comuns nos cultos da igreja Vineyard. Das 347.000 igrejas protestantes nos Estados Unidos e das 22.200 igrejas no Canadá que perfazem 230 denominações, a maior parte da congregação "veste-se a rigor" durante as manhãs dominicais (estes números foram extraídos da revista "Religious Market" magazine-americanchurchlists@infoUSA.com). Se buscássemos o número de cristãos não-protestantes que "vestem-se a rigor" para ir à igreja, esse número seria astronômico.
Max Barsis, The CommonMan Through the Centuries (New York: Unger, 1973).
Leigh Eric Schmidt, "A Church Going People is a Dress-Loving People," ChurchHistory (58), pp. 38-39. ™ Ibid.
Em 1664 James Hargreaves inventou a "spinningjenny" [máquina de fiar primitiva] disponibilizando às massas um tecido melhor e mais colorido (Elizabeth Ewing, Everyday Dress 1650-1900, London: Bratsford, 1984, pp. 56-57). 6[6] Richard Bushman, The Refinement of America (New York: Knopf, 1992), p. 313.
7[7] Henry Warner Bowden and P.C. Kemeny, ed., American Church History: A Reader (Nashville, Abingdon Press, 1971), pp. 87-89. A roupa e a hierarquia estavam estreitamente conectadas na América colonial. Um folheto anônimo na Filadélfia em 1722 entitulado The Miraculous Power of Clothes, and Dignity of the Taylors: Being an Essay on the Words, Clothes Make Men sugeria o seguinte: O estado social, posto e poder eram expressos através da roupa. A conexão entre a roupa e a hierarquia na sociedade colonial imprimiu às roupas um poder simbólico. Tal mentalidade eventualmente contaminou a igreja cristã.
Rupert Davies, A History of the Methodist Church in Great Britain (London: Epworth, 1965), p. 193; Journals of Wesley, Nehemiah Curnock, ed. (London: Epworth Press, 1965), p. 193. O ensinamento de Wesley sobre roupas foi chamado de "evangelho da simplicidade". A mensagem principal dele era de que os cristãos deveriam vestir-se de uma forma modesta, limpa e simples. Wesley falava tão freqüentemente sobre este assunto que se atribuiu a ele a seguinte frase: "A limpeza e a santidade andam juntas". Porém, essa frase vem de um rabino (Phinehas Ben-Yair, Song ofSongs, Midrash Rabbah, I.1:9). 9[9] “A Church Going People is a Dress-Loving People," p. 40. 10[10] The Refinement of America, pp. 335, 352.
Ibid., p. 350. As denominações com um maior número de membros ricos (Episcopal, Unitariana, etc.) começaram a vender bancos a famílias ricas para arrecadar fundos para um minucioso programa de construção de igrejas. "Devido ao custo dos bancos, os adoradores tiveram que usar roupas adequadas ao esplendor do edifício e o estilo da congregação para muitos se tornou uma barreira insuperável. Um século antes um fazendeiro comum poderia vestir-se bem indo à igreja com uma camisa azul xadrez. Na atmosfera distinta das novas e luxuosas igrejas requeria-se mais do que isso". 12[12] Ibid., pp. 335, 342, 346. 13[13] Ibid., pp. 328, 331. 14[14] Ibid., p. 350.
15[15] “A Church Going People is a Dress-Loving People," p. 36.
16[16] The Refinement of America, p. 319. "Os metodistas primitivos sabiam que a roupa da moda era uma inimiga, mas agora a inimiga estava ganhando". Schmidt escreveu, "As pessoas preocupavam-se com o Sabbath... com vestir suas melhores roupas; A roupa dominical tornou-se proverbial. Até mesmo os pietistas e evangélicos que tanto insistiam na simplicidade da roupa adotaram roupas formais e "decentes" ("A Church Going People is a Dress-Loving People," p. 45).
17] Deus olha para o coração; Ele não se impressiona com o traje que usamos (1 Sam. 16:7; Lucas 11:39; 1 Pedro 3:3-5). Nossa
adoração é no espírito, não na aparência física (João 4:20-24).
18[18] Christian Smith, "Our Dressed Up Selves," Voices in the Wilderness (Sept/Oct. 1987), p. 2.
19[19] Em seu livro Ante Pacem: Archaeological Evidence of Church Life Before Constantine (Mercer University
Press/Seedsowers, 1985), Graydon Snyder afirma que há aproximadamente 30 cartas disponíveis escritas por cristãos antes de
Constantino. Estas cartas são assinadas apenas pelo primeiro nome, o que indica que os cristãos não usavam os sobrenomes dos
seus irmãos. A razão: Assim a origem social deles ocultava-se uns dos outros! (Email privado enviado por Graydon Snyder,
10/12/2001 e 10/14/2001.)
20[20] Tiago 2:1-5. Esta passagem também indica que usar roupa da moda na igreja era uma exceção, não uma regra,.
21[21] Marcos 7:1-13.
22[22] Deu. 4:2; Prov. 30:6; Apocalipse 22:18.
23[23] "Vestments," The Catholic Encyclopedia 1913 On-Line Edition (www.newadvent.org/cathen); "Sacred Rights Ceremonies:
The Concept and Forms of Ritual: Christianity," Encyclopedia Britannica (On-line edition, 1994-1998). Pouco antes
Constantino, os clérigos usavam apenas um capote de pano fino quando ministravam a Eucaristia.
24[24] "Vestments," The Catholic Encyclopedia. Em "Origin" encontramos: "As vestes clericais cristãs não se originaram na veste
sacerdotal do Velho Testamento, elas se desenvolveram inspiradas na roupa secular do mundo greco-romano". Veja também
Janet Mayo, A History ofEcclesiastical Dress (New York: Holmes & Meier Publishers, 1984), pp. 11-12. Mayo escreve, "Uma
análise do vestuário eclesiástico revelará que teve sua origem em roupas romanas seculares. A visão de que o vestuário teve
origem levítica e veio de artigos do vestuário sacerdotal judeu é uma idéia posterior...". Sobre a desconhecida história dos
costumes religiosos, veja Amelia Mott Gummere, The Quaker: A Study in Costume (New York, 1901).
25[25] "On Clothes" in The Instructor, Ante-Nicene Fathers, Vol. 2, p. 284.
26[26] “On Clothes" in The Instructor, Bk2. Ch. 11; A History ofEcclesiasticalDress, p. 15.
27[27] ^ AHistory ofEcclesiastical Dress, pp. 14-15.
28[28] Ibid., pp. 14-15; Kenneth Scott Latourette, A History of Christianity (New York: Harper and Brothers, 1953), p 211. The
Westminster Dictionary ofChurch History (Philadelphia: The Westminster Press, 1971), p. 284.
"As vestes do bispo eram idênticas à velha batina do magistrado romano". Edwin Hatch, The Organization ofthe Early Christian Churches (London: Longman's, Green, and Co., 1895), p. 164. As vestes do bispo indicavam uma estrutura de uma casta específica, e incluía um manto sudário branco trabalhado ou mappula, sandálias negras ou campagi, e meias brancas ou undones. Estas eram as vestes dos magistrados romanos. (Paul Johnson, A History of Christianity, New York: Simon & Schuster, 1976, p. 133).
Frank Senn, Christian Worship and Its Cultural Setting (Philadelphia: Fortress Press, 1983), p. 41; "Sacred Rights Ceremonies: The Concept and Forms of Ritual": Christianity," Encyclopedia Britannica (On-line edition, 1994-1998). 31[31] Email particular recebido de Eugene TeSelle, Professor de História da Igreja e Teologia, Vanderbilt University, 1/18/2000.
32[32] Jerome disse que Deus é honrado se o bispo usar uma túnica branca mais bonita que o habitual. Email particular recebido de Frank Senn 7/18/2000. Veja também Jerome, "Against Jovinianus" Book 2.34 (Nicene andPost-Nicene Fathers, Series II, Vol. VI) e "Lives of Illustrious Men," Capítulo 2 (Nicene/Post-Nicene Fathers, Series II, Vol. III). 33[33] Father Michael Collins and Matthew A. Price, The Story ofChristianity (DK Publishing, 1999), pp. 25, 65.
A Historical Approach to Evangelical Worship, pp. 116-117. Mayo's A History of Ecclesiastical Dress entra em grandes detalhes acerca do desenvolvimento de cada peça das vestes clericais em cada fase histórica e em cada tradição. Nenhuma peça importante distintiva foi usada durante os primeiros mil anos, a cinta não era conhecida até o oitavo século (A Concise Cyclopedia ofReligiousKnowledge,New York: Charles L. Webster & Company, 1890, p. 943.)
35] A History of Ecclesiastical Dress, p. 27; Isidore de Pelusium (por volta de 440 d.C.) foi o primeiro a designar interpretações simbólicas a partes do vestuário. Por volta do século VIII no Ocidente e do século IX no Oriente, cada peça do traje sacerdotal possuía um determinado significado simbólico ("Vestments," The Catholic Encyclopedia). O povo medieval venerava o simbolismo de tal forma que atribuiu a cada peça do vestuário religioso um significado "espiritual". Estes significados estão vivos até hoje nas igrejas litúrgicas.
36[36] Christian Worship andIts Cultural Setting, p. 41. A sacristia era um cômodo especial no edifício da igreja onde as vestes clericais e outros objetos sagrados ficavam guardados. 37[37] A History of Ecclesiastical Dress, p. 27. 38[38] The Story ofChristianity, pp. 25, 65.
A History of Ecclesiastical Dress, p. 64. Zwinglio e Lutero rapidamente descartaram as vestes do sacerdote católico. David D. Hall, The Faithful Shepherd(Chapel Hill: The University of North Carolina Press, 1972), p. 6.
40[40] Zwinglio foi o primeiro a introduzir a batina negra dos estudantes em Zurique no outono de 1523. Lutero a adotou na tarde de 9 de outubro de 1524 (The Ministry in Historical Perspectives, p. 147). Veja também George Marsden, The Soul of the American University: From Protestant Establishment and EstablishedNonbelief(New York: Oxford University Press, 1994), p. 37.
H.I. Marrou, A History of Education in Antiquity (New York: Sheed and Ward, 1956), p. 206. "O filósofo poderia ser reconhecido pelo capote curto e escuro feito de pano grosso". Veja também M.A. Smith, From Christ to Constantine (Downer's Grove: InterVarsity Press, 1973), p. 105.
42[42] H. Richard Niebuhr and Daniel D. Williams, The Ministry in Historical Perspectives (San Francisco: Harper and Row Publishers, 1956), p. 147. A batina preta era a "roupa clerical de rua" no século XVI (Christian Worship andIts Cultural Setting), p. 42.
43[43] Owen Chadwick, TheReformation (Penguin Books, 1968), pp. 422-423. 44[44] A History of Ecclesiastical Dress, p. 66.
American ChurchHistory: A Reader, p. 89. 46]AHistoryofEcclesiasticalDress, pp. 77-78. 47[47]Ibid., p. 118. 48[48] Ibid., p. 94. 49[49] Ibid.,pp. 94,118.
The Ministry in Historical Perspectives, p. 164. Segundo o The London Times (14 de março de 2002), o colar clerical foi inventado pelo Reverendo Dr. Donald McLeod de Glasgow. A crença popular é que o colar clerical foi inventado pela contra-reforma católica para impedir que os padres usassem os grandes ruffs usados pelos pastores protestantes (The Reformation, p. 423). Mas parece que eles vieram bastante tempo depois.
Lucas 7:25; 2 Cor. 8:9. Aparentemente a roupa mais bonita que Jesus usou enquanto esteve na terra foi motivo de zombaria — Lucas 23:11. Revelando que o Filho de Deus veio à terra, não em roupa real, mas envolto em tiras de pano (Lucas 2:7). Nota-se que João Batista foi o caso mais extremo dos que não buscavam impressionar Deus com sua roupa (Mat. 3:4). 52[52] Mat. 23:5; Marcos 12:38.
53[53] Lucas 20:46, NIV.
Capítulos anteriores
1. Liturgia
2. Cristianismo Pagão - Sermão: A vaca mais sagrada do Protestantismo
3. Cristianismo Pagão: O edifício da igreja
4. Cristianismo Pagão: Pastor
O que vale mais?
Thiago Azevedo
Durante muito tempo em minha vida religiosa fui um diligente e ardoroso defensor da "verdade", pelo menos da minha, através de uma apologética agressiva e até de certo ponto arrogante, mas que no decorrer da vida me mostrou que era completamente inútil e pude ver na prática o que significava o que Paulo dizia em ter ou fazer tudo, sem amor, para nada serve.
Então fica a pergunta, o que é mais importante, a "verdade" ou o amor? Este é um dilema que ainda permeia minha vida, não que de agora em diante passemos a viver na mentira em nome do amor, mas quando digo "verdade", são essas que construimos através de nossos dogmas que estabelecemos na vida e que acabam refletindo nossa religiosidade. E no fim criamos uma cartilha de "verdades" pela qual vivemos e morremos, entretanto, qual é a única verdade? Quem pode afirmar que está plenamente certo e viver sem nenhuma sombra de dúvida?
Nessa caminhada na agressividade apologética me fez ver que perdi pessoas e oportunidades de demonstrar um evangelho que está acima do bem e do mal, acima do que acho ser verdade ou não, do certo e errado, mas é pautado em manifestações de amor, em gestos simples, porém carregados de compaixão e misericórdia.
Caminhando pelo Novo Testamento, a única apologética concreta que temos é de que não nos devemos deixar perder o amor que deve inundar nossos corações. Então de que vale a "verdade" sem amor?
Poderemos convencer o mundo com nossos argumentos racionais e lógicos sobre a "verdade" que cremos ter, mas de que adiantará se tirarmos delas a capacidade de amar, assim como nós também através caminhada insana pela "verdade" perdemos? Não era essa a questão entre Jesus e os fariseus? Antes deve-se buscar nutrir nossos corações com a verdade do amor, que flui de Deus e que nos faz semear na terra sementes de paz.
Então o que vale mais, amar ou defender a verdade? Ainda não tenho a resposta, apenas perguntas, já experimentei valorizar defender a verdade e concluí, assim como Coelet que também é vaidade. Hoje quero experimentar um novo caminho, o do amor, ainda que os resquícios do apologeta, arrogante, duro e insensato perdure.
Vamos ver o que acontecerá.
Paz e bem.
Durante muito tempo em minha vida religiosa fui um diligente e ardoroso defensor da "verdade", pelo menos da minha, através de uma apologética agressiva e até de certo ponto arrogante, mas que no decorrer da vida me mostrou que era completamente inútil e pude ver na prática o que significava o que Paulo dizia em ter ou fazer tudo, sem amor, para nada serve.
Então fica a pergunta, o que é mais importante, a "verdade" ou o amor? Este é um dilema que ainda permeia minha vida, não que de agora em diante passemos a viver na mentira em nome do amor, mas quando digo "verdade", são essas que construimos através de nossos dogmas que estabelecemos na vida e que acabam refletindo nossa religiosidade. E no fim criamos uma cartilha de "verdades" pela qual vivemos e morremos, entretanto, qual é a única verdade? Quem pode afirmar que está plenamente certo e viver sem nenhuma sombra de dúvida?
Nessa caminhada na agressividade apologética me fez ver que perdi pessoas e oportunidades de demonstrar um evangelho que está acima do bem e do mal, acima do que acho ser verdade ou não, do certo e errado, mas é pautado em manifestações de amor, em gestos simples, porém carregados de compaixão e misericórdia.
Caminhando pelo Novo Testamento, a única apologética concreta que temos é de que não nos devemos deixar perder o amor que deve inundar nossos corações. Então de que vale a "verdade" sem amor?
Poderemos convencer o mundo com nossos argumentos racionais e lógicos sobre a "verdade" que cremos ter, mas de que adiantará se tirarmos delas a capacidade de amar, assim como nós também através caminhada insana pela "verdade" perdemos? Não era essa a questão entre Jesus e os fariseus? Antes deve-se buscar nutrir nossos corações com a verdade do amor, que flui de Deus e que nos faz semear na terra sementes de paz.
Então o que vale mais, amar ou defender a verdade? Ainda não tenho a resposta, apenas perguntas, já experimentei valorizar defender a verdade e concluí, assim como Coelet que também é vaidade. Hoje quero experimentar um novo caminho, o do amor, ainda que os resquícios do apologeta, arrogante, duro e insensato perdure.
Vamos ver o que acontecerá.
Paz e bem.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Sobre a morte e o morrer
Rubem Alves
Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”
Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.
Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.
Vi no Releituras
O que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de
um ser humano? O que e quem a define?
Já tive medo da morte. Hoje não tenho mais. O que sinto é uma enorme tristeza. Concordo com Mário Quintana: "Morrer, que me importa? (...) O diabo é deixar de viver." A vida é tão boa! Não quero ir embora...
Eram 6h. Minha filha me acordou. Ela tinha três anos. Fez-me então a pergunta que eu nunca imaginara: "Papai, quando você morrer, você vai sentir saudades?". Emudeci. Não sabia o que dizer. Ela entendeu e veio em meu socorro: "Não chore, que eu vou te abraçar..." Ela, menina de três anos, sabia que a morte é onde mora a saudade.
Cecília Meireles sentia algo parecido: "E eu fico a imaginar se depois de muito navegar a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barcas, nem gaivotas. Apenas sobre humanas companhias... Com que tristeza o horizonte avisto, aproximado e sem recurso. Que pena a vida ser só isto...”
Da. Clara era uma velhinha de 95 anos, lá em Minas. Vivia uma religiosidade mansa, sem culpas ou medos. Na cama, cega, a filha lhe lia a Bíblia. De repente, ela fez um gesto, interrompendo a leitura. O que ela tinha a dizer era infinitamente mais importante. "Minha filha, sei que minha hora está chegando... Mas, que pena! A vida é tão boa...”
Mas tenho muito medo do morrer. O morrer pode vir acompanhado de dores, humilhações, aparelhos e tubos enfiados no meu corpo, contra a minha vontade, sem que eu nada possa fazer, porque já não sou mais dono de mim mesmo; solidão, ninguém tem coragem ou palavras para, de mãos dadas comigo, falar sobre a minha morte, medo de que a passagem seja demorada. Bom seria se, depois de anunciada, ela acontecesse de forma mansa e sem dores, longe dos hospitais, em meio às pessoas que se ama, em meio a visões de beleza.
Mas a medicina não entende. Um amigo contou-me dos últimos dias do seu pai, já bem velho. As dores eram terríveis. Era-lhe insuportável a visão do sofrimento do pai. Dirigiu-se, então, ao médico: "O senhor não poderia aumentar a dose dos analgésicos, para que meu pai não sofra?". O médico olhou-o com olhar severo e disse: "O senhor está sugerindo que eu pratique a eutanásia?".
Há dores que fazem sentido, como as dores do parto: uma vida nova está nascendo. Mas há dores que não fazem sentido nenhum. Seu velho pai morreu sofrendo uma dor inútil. Qual foi o ganho humano? Que eu saiba, apenas a consciência apaziguada do médico, que dormiu em paz por haver feito aquilo que o costume mandava; costume a que freqüentemente se dá o nome de ética.
Um outro velhinho querido, 92 anos, cego, surdo, todos os esfíncteres sem controle, numa cama -de repente um acontecimento feliz! O coração parou. Ah, com certeza fora o seu anjo da guarda, que assim punha um fim à sua miséria! Mas o médico, movido pelos automatismos costumeiros, apressou-se a cumprir seu dever: debruçou-se sobre o velhinho e o fez respirar de novo. Sofreu inutilmente por mais dois dias antes de tocar de novo o acorde final.
Dir-me-ão que é dever dos médicos fazer todo o possível para que a vida continue. Eu também, da minha forma, luto pela vida. A literatura tem o poder de ressuscitar os mortos. Aprendi com Albert Schweitzer que a "reverência pela vida" é o supremo princípio ético do amor. Mas o que é vida? Mais precisamente, o que é a vida de um ser humano? O que e quem a define? O coração que continua a bater num corpo aparentemente morto? Ou serão os ziguezagues nos vídeos dos monitores, que indicam a presença de ondas cerebrais?
Confesso que, na minha experiência de ser humano, nunca me encontrei com a vida sob a forma de batidas de coração ou ondas cerebrais. A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia.
Muitos dos chamados "recursos heróicos" para manter vivo um paciente são, do meu ponto de vista, uma violência ao princípio da "reverência pela vida". Porque, se os médicos dessem ouvidos ao pedido que a vida está fazendo, eles a ouviriam dizer: "Liberta-me".
Comovi-me com o drama do jovem francês Vincent Humbert, de 22 anos, há três anos cego, surdo, mudo, tetraplégico, vítima de um acidente automobilístico. Comunicava-se por meio do único dedo que podia movimentar. E foi assim que escreveu um livro em que dizia: "Morri em 24 de setembro de 2000. Desde aquele dia, eu não vivo. Fazem-me viver. Para quem, para que, eu não sei...". Implorava que lhe dessem o direito de morrer. Como as autoridades, movidas pelo costume e pelas leis, se recusassem, sua mãe realizou seu desejo. A morte o libertou do sofrimento.
Dizem as escrituras sagradas: "Para tudo há o seu tempo. Há tempo para nascer e tempo para morrer". A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A "reverência pela vida" exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir. Cheguei a sugerir uma nova especialidade médica, simétrica à obstetrícia: a "morienterapia", o cuidado com os que estão morrendo. A missão da morienterapia seria cuidar da vida que se prepara para partir. Cuidar para que ela seja mansa, sem dores e cercada de amigos, longe de UTIs. Já encontrei a padroeira para essa nova especialidade: a "Pietà" de Michelangelo, com o Cristo morto nos seus braços. Nos braços daquela mãe o morrer deixa de causar medo.
Texto publicado no jornal “Folha de São Paulo”, Caderno “Sinapse” do dia 12/10/03. fls 3.
Vi no Releituras
Hitler reclama da UNIBAM
Depoois do fatídico episódio da UNIBAN, Hitler não poderia ficar de fora e também criticar a instituição, justamente porque chamaram os caras de Nazistas e para limpar o nome do Nazismo, ele se defende. hehehehehe.
Vejam também a versão do Fora Sarney, tão boa quanto a primeira.
Apenas 28
Thiago Azevedo
Dois ponto oito de estrada, muita coisa rolou e muita coisa aconteceu. Vi coisas e vivi coisas, não senti muito bem minha década, mas consegui desfrutar das delícias que ela proporcionou, como Legião Urbana, Paralamas, Titãs e muitos outros que aprendi a ouvir. Pude brincar na rua, sujando meus pés na lama, me molhando na chuva, jogando bola de criança e muitas outras brincadeiras da minha infância.
Tive oportunidade de ver o mundo ao meu redor mudar drásticamente, as distâncias se encurtaram, primeiro com o celular, depois a internet, mas uma distância pra mim ficou muito menor, a distância entre mim e Deus. Pude ver cada pergunta sendo respondida e novas no caminho sendo indagadas.
Vi meu mundo de diversão e irresponsabilidades infantis se modificar para uma vida de trabalho, amigos e família. Lembro que a cada aniversário era uma ansiedade muito boa, pois o maior desejo da criança é a sua virada de ano, onde as atenções estão voltadas pra você, porque você vai deixando mais 1Km na estrada da vida e seguindo adiante.
Como diz o poeta, você nem nasce e já começa a partir, então o que é fazer vinte e oito anos? Parece que nada muda, você continua o mesmo nem 27 e nem 29, apenas 28, já percorreste um bom caminho, mas ainda há muito o que caminhar, muito o que aprender, muito o que viver.
O que desejo para meus 28? Viver a vida com a maravilhosa intensidade que Deus me deu, sem neuroses, menos crises, apenas vida e somente vida. Que possa ver nela mais música e mais poesia. Principalmente ver nesse caminho, a oportunidade de aprender a ser livre.
Afinal, o que é ter vinte e oito? É não ser nem velho e nem novo, apenas vinte e oito.
Paz e bem
Dois ponto oito de estrada, muita coisa rolou e muita coisa aconteceu. Vi coisas e vivi coisas, não senti muito bem minha década, mas consegui desfrutar das delícias que ela proporcionou, como Legião Urbana, Paralamas, Titãs e muitos outros que aprendi a ouvir. Pude brincar na rua, sujando meus pés na lama, me molhando na chuva, jogando bola de criança e muitas outras brincadeiras da minha infância.
Tive oportunidade de ver o mundo ao meu redor mudar drásticamente, as distâncias se encurtaram, primeiro com o celular, depois a internet, mas uma distância pra mim ficou muito menor, a distância entre mim e Deus. Pude ver cada pergunta sendo respondida e novas no caminho sendo indagadas.
Vi meu mundo de diversão e irresponsabilidades infantis se modificar para uma vida de trabalho, amigos e família. Lembro que a cada aniversário era uma ansiedade muito boa, pois o maior desejo da criança é a sua virada de ano, onde as atenções estão voltadas pra você, porque você vai deixando mais 1Km na estrada da vida e seguindo adiante.
Como diz o poeta, você nem nasce e já começa a partir, então o que é fazer vinte e oito anos? Parece que nada muda, você continua o mesmo nem 27 e nem 29, apenas 28, já percorreste um bom caminho, mas ainda há muito o que caminhar, muito o que aprender, muito o que viver.
O que desejo para meus 28? Viver a vida com a maravilhosa intensidade que Deus me deu, sem neuroses, menos crises, apenas vida e somente vida. Que possa ver nela mais música e mais poesia. Principalmente ver nesse caminho, a oportunidade de aprender a ser livre.
Afinal, o que é ter vinte e oito? É não ser nem velho e nem novo, apenas vinte e oito.
Paz e bem
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Vamos ajudar as ribeirinhas
A cada mês, aproximadamente duas mulheres ribeirinhas são vitimas acidentais de escalpelamento no Pará.
A JCA (Jovens Cristãs em Ação) está desenvolvendo o projeto "Por Amor às Ribeirinhas", que tem como objetivo a doação de perucas para as vítimas que sofreram o trauma. Além das consequências físicas, grandes são as sequelas emocionais, e por isso, o projeto se ampliou. Será feito um acompanhamento psicológico com as meninas.
Você também pode ajudar de duas maneiras: Doando seus cabelos ou contribuindo com uma oferta, que será revertida para a confecção das perucas e para a melhoria do "Espaço Acolher", onde as vítimas se hospedam durante todo o tratamento, uma vez que a maioria delas não moram na capital.
"E eu te mostrarei a minha fé pelas minas obras" (Tiago 2:18b)
vi no site da PIB-PA
Nem tanto nem tampouco
Ricardo Gondim
Vale o chavão: “Ninguém sabe o tempo de sua existência”. Basta a imprevisibilidade de uma breve arritmia para qualquer um descerebrar e acabar. Em um simples vacilo, o menino, que imagina viver décadas, rasga os roteiros imaginados por seus pais. A mocinha pode deparar-se com um depravado e perder, não apenas a dignidade, mas a própria vida. O ancião sonha ouvir o ranger de uma guilhotina que o acorda no meio da madrugada.
Retorno aos chavões: “A vida é uma maratona”. O jovem sente que um ano se arrasta sem pressa. O senhor, pasmo, nota o passado alongando-se impiedosamente. Como na corrida, é preciso saber espaçar o tempo. Entre nascimento e morte, dispomos de um período indeterminado, mas limitado. Quem corre maratona entende o clichê. Na corrida, o percurso é estipulado para que cada corredor dose sua cadência. Na vida, sem conhecer a extensão a ser completada, fica imprescindível saber imprimir o ritmo certo. Os velocistas não duram.
Para correr bem, é necessário reconhecer que devaneios onipotentes sugam energias. E que desejos de onipotência brotam do esforço humano de evitar o sofrimento. Luta-se para acabar com as contingências, blindar-se dos percalços e não permitir que a crueza existencial se concretize. Contudo, por mais que alguém se esforce, a mente não burla a vida. Não adianta, a religião não iça ninguém para patamares inatingíveis por maldade, acidentes ou injustiça . Como pretensas arquitetas de Nirvanas, Paraísos e Shangrilás, as pessoas não se conformam com a dureza do mundo. Teimam em acreditar que suas idéias são fortes o suficiente para transfigurar a realidade que aspiram.
Em minha última maratona, fiquei com dois pensamentos na cabeça: preciso cumprir o percurso; preciso terminar vivo. (Oxalá, todos terminássemos a vida, vivos) Para isso, tive que dosar as energias; qualquer afobação significaria parar. Também não podia invejar ninguém. Consciente da idade, dos limites do corpo e do meu condicionamento, engoli seco sempre que os menos capazes me ultrapassavam. Aquela corrida era minha, só minha. Eu competia comigo mesmo nas mais de quarenta e duas mil passadas que a prova exigia. Depois, enquanto observava os caídos, os enauseados, os paralisados, celebrei a cautela, que me deixava com jeito pusilânime até pouco .
Os delírios são herdeiros bastardos do reino de Narciso. Todo o que alucina se acha apto para modificar o mundo. O cientista tenta calcular matematicamente os acontecimentos e criar mecanismos que os ordenem. Os religiosos almejam acessar Deus e anular qualquer eventualidade. O delírio gera otimistas e pessimistas. Ambos acreditam na inexorabilidade do amanhã, mas os realistas reconhecem as suas limitações. E já que abuso dos jargões: Na vida, não esqueça, “devagar se vai ao longe”.
Soli Deo Gloria
*Terminei a Maratona em 4 horas e 18 minutos
Via site do Ricardo Gondim
Vale o chavão: “Ninguém sabe o tempo de sua existência”. Basta a imprevisibilidade de uma breve arritmia para qualquer um descerebrar e acabar. Em um simples vacilo, o menino, que imagina viver décadas, rasga os roteiros imaginados por seus pais. A mocinha pode deparar-se com um depravado e perder, não apenas a dignidade, mas a própria vida. O ancião sonha ouvir o ranger de uma guilhotina que o acorda no meio da madrugada.
Retorno aos chavões: “A vida é uma maratona”. O jovem sente que um ano se arrasta sem pressa. O senhor, pasmo, nota o passado alongando-se impiedosamente. Como na corrida, é preciso saber espaçar o tempo. Entre nascimento e morte, dispomos de um período indeterminado, mas limitado. Quem corre maratona entende o clichê. Na corrida, o percurso é estipulado para que cada corredor dose sua cadência. Na vida, sem conhecer a extensão a ser completada, fica imprescindível saber imprimir o ritmo certo. Os velocistas não duram.
Para correr bem, é necessário reconhecer que devaneios onipotentes sugam energias. E que desejos de onipotência brotam do esforço humano de evitar o sofrimento. Luta-se para acabar com as contingências, blindar-se dos percalços e não permitir que a crueza existencial se concretize. Contudo, por mais que alguém se esforce, a mente não burla a vida. Não adianta, a religião não iça ninguém para patamares inatingíveis por maldade, acidentes ou injustiça . Como pretensas arquitetas de Nirvanas, Paraísos e Shangrilás, as pessoas não se conformam com a dureza do mundo. Teimam em acreditar que suas idéias são fortes o suficiente para transfigurar a realidade que aspiram.
Em minha última maratona, fiquei com dois pensamentos na cabeça: preciso cumprir o percurso; preciso terminar vivo. (Oxalá, todos terminássemos a vida, vivos) Para isso, tive que dosar as energias; qualquer afobação significaria parar. Também não podia invejar ninguém. Consciente da idade, dos limites do corpo e do meu condicionamento, engoli seco sempre que os menos capazes me ultrapassavam. Aquela corrida era minha, só minha. Eu competia comigo mesmo nas mais de quarenta e duas mil passadas que a prova exigia. Depois, enquanto observava os caídos, os enauseados, os paralisados, celebrei a cautela, que me deixava com jeito pusilânime até pouco .
Os delírios são herdeiros bastardos do reino de Narciso. Todo o que alucina se acha apto para modificar o mundo. O cientista tenta calcular matematicamente os acontecimentos e criar mecanismos que os ordenem. Os religiosos almejam acessar Deus e anular qualquer eventualidade. O delírio gera otimistas e pessimistas. Ambos acreditam na inexorabilidade do amanhã, mas os realistas reconhecem as suas limitações. E já que abuso dos jargões: Na vida, não esqueça, “devagar se vai ao longe”.
Soli Deo Gloria
*Terminei a Maratona em 4 horas e 18 minutos
Via site do Ricardo Gondim
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Pai e filho
Thiago Azevedo
Pai
Porque queres partir?
Sair assim e fugir de mim?
Queres tua parte?
Nem sei calcular
O meu amor que te cabe
Mas deixarei que vá.
Filho
Quero sair e conhecer a vida
Não se preocupe pai
O dinheiro é para me dar guarida
Minha mochila está à mão
Com tudo, não deixo nada
A não ser a recordação
De meu quarto e minha casa
Viro as costas
Não olho pra trás
Só vejo a sombra
De alguém que me espera
É meu pai.
Pai
Nem sei quantas horas passei
Sentado a beira desse portão
De coração partido
A espera de um filho
Que partiu
Levando meu amor
E minha compaixão.
Ainda o aguardo
Mesmo que tudo acabe
Creio que ele ainda volte
Quem sabe.
Filho
Sinto-me livre
Longe de tudo
Principalmente de casa
Posso agora desfrutar da vida
Antes que o mundo acabe
Sem mais me preocupar
Tenho minha herança
O que é meu pai?
Só uma lembrança.
Pai
Que brisa gostosa
Lembra meu filho
Quando passeávamos essa hora
Sinto uma dolorida saudade
O que estará fazendo agora?
Continuarei aqui sentado
À frente deste portão
Esperando sua sombra
Espero que não lhe falte nada
Principalmente o pão.
Filho
Como assim tudo acabou?
Não tenho mais dinheiro
Nem abrigo me restou
O que farei agora
Não posso voltar pra casa
Meu pai não me aceitará
Vou ficar por aqui
Talvez mendigar
Por um pouco de misericórdia
Poderei me alimentar.
Pai
Que sensação estranha
Sinto algo de ruim
A alguém muito querido
Precioso demais pra mim
Meu Deus meu filho
O que terá acontecido?
Pai do céu cuida dele
Não sei o que será de mim
Se meu filho não voltar
Mas ainda hei de esperar.
Filho
O que foi que fiz?
Deixei o amor grandioso de meu pai
Para conhecer o mundo lá fora
No fim perdi tudo
Até minha dignidade agora
Estou comendo comida de porcos
Tenho que voltar
Mesmo que isso me custe à vida
Preciso tentar
Vou pelo mais difícil caminho
Mesmo que venha tropeçar
E me ferir na estrada
Meu pai vai me esperar
Mesmo como um empregado
Vou retornar.
Pai
Minhas lágrimas de saudades são muitas
Nem sei se posso parar
Sinto falta de meu filho
Não sei se voltará
Ainda o espero
Mesmo que seja para lhe enterrar.
Pai, vim lhe pedir um lar
Filho deixe-me lhe beijar
Quero ser apenas um empregado
Não continue, deixa pra lá
Mas errei contra ti
O importante é que não morreu
Deixe-me ficar num canto
Tome, use esta capa e aliança
Não sei se mereço
Não é por merecimento que te dou
É minha prova de amor
Estou muito arrependido
Venha filho, caminhe novamente comigo
Quero contar-lhe o que passei
Vamos aproveitar uma nova brisa da tarde
Não me lembrava de mais nada
A única coisa importante pra mim
Eu sei, é que eu voltei.
Via Poesia das Mangueiras
Pai
Porque queres partir?
Sair assim e fugir de mim?
Queres tua parte?
Nem sei calcular
O meu amor que te cabe
Mas deixarei que vá.
Filho
Quero sair e conhecer a vida
Não se preocupe pai
O dinheiro é para me dar guarida
Minha mochila está à mão
Com tudo, não deixo nada
A não ser a recordação
De meu quarto e minha casa
Viro as costas
Não olho pra trás
Só vejo a sombra
De alguém que me espera
É meu pai.
Pai
Nem sei quantas horas passei
Sentado a beira desse portão
De coração partido
A espera de um filho
Que partiu
Levando meu amor
E minha compaixão.
Ainda o aguardo
Mesmo que tudo acabe
Creio que ele ainda volte
Quem sabe.
Filho
Sinto-me livre
Longe de tudo
Principalmente de casa
Posso agora desfrutar da vida
Antes que o mundo acabe
Sem mais me preocupar
Tenho minha herança
O que é meu pai?
Só uma lembrança.
Pai
Que brisa gostosa
Lembra meu filho
Quando passeávamos essa hora
Sinto uma dolorida saudade
O que estará fazendo agora?
Continuarei aqui sentado
À frente deste portão
Esperando sua sombra
Espero que não lhe falte nada
Principalmente o pão.
Filho
Como assim tudo acabou?
Não tenho mais dinheiro
Nem abrigo me restou
O que farei agora
Não posso voltar pra casa
Meu pai não me aceitará
Vou ficar por aqui
Talvez mendigar
Por um pouco de misericórdia
Poderei me alimentar.
Pai
Que sensação estranha
Sinto algo de ruim
A alguém muito querido
Precioso demais pra mim
Meu Deus meu filho
O que terá acontecido?
Pai do céu cuida dele
Não sei o que será de mim
Se meu filho não voltar
Mas ainda hei de esperar.
Filho
O que foi que fiz?
Deixei o amor grandioso de meu pai
Para conhecer o mundo lá fora
No fim perdi tudo
Até minha dignidade agora
Estou comendo comida de porcos
Tenho que voltar
Mesmo que isso me custe à vida
Preciso tentar
Vou pelo mais difícil caminho
Mesmo que venha tropeçar
E me ferir na estrada
Meu pai vai me esperar
Mesmo como um empregado
Vou retornar.
Pai
Minhas lágrimas de saudades são muitas
Nem sei se posso parar
Sinto falta de meu filho
Não sei se voltará
Ainda o espero
Mesmo que seja para lhe enterrar.
Pai, vim lhe pedir um lar
Filho deixe-me lhe beijar
Quero ser apenas um empregado
Não continue, deixa pra lá
Mas errei contra ti
O importante é que não morreu
Deixe-me ficar num canto
Tome, use esta capa e aliança
Não sei se mereço
Não é por merecimento que te dou
É minha prova de amor
Estou muito arrependido
Venha filho, caminhe novamente comigo
Quero contar-lhe o que passei
Vamos aproveitar uma nova brisa da tarde
Não me lembrava de mais nada
A única coisa importante pra mim
Eu sei, é que eu voltei.
Via Poesia das Mangueiras
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