Thiago Azevedo
Sempre quando se pensa algo sobre
o Sagrado, o invólucro para fomentar e ressignificá-lo é a adversidade, não é à
toa que Jesus teceu seu mais emblemático conceito dEle véspera de ser preso,
quando este suava sangue. Também, quando falava para uma multidão de excluídos,
sobre perspectivas do Sagrado, não vou chama-lo Deus, pois se trata de um
título, certa vez ouvi Milton Schwantes dizer que todos os outros credos tem um
nome para o Sagrado, entretanto o cristianismo por falta de criatividade
denominou Deus, que nada mais é um título e não expressa seu caráter. Por conta
disso, vou denomina-lo Sagrado.
Enfim, voltando ao raciocínio em
questão, diante das crises, os homens teceram suas hipóteses sobre o divino e
com isso as religiões foram tentando explicar sua existência, suas perspectivas
sobre o futuro e também justificam suas ações, boas ou ruins sobre e na terra.
Tanto é verdade que a invasão, genocídio e depredação de Canaã foi justificado
pelo argumento de uma terra prometida pelo Sagrado e num ato de expropriação
dos antigos habitantes, foram excomungados de seu lar, quando que num simples
gesto, poderiam desenvolver ali um sentimento de Co-existência. Bom, isso é
algo que nenhum ser humano aprendeu a desenvolver, visto que sempre estamos à
mercê da concorrência, isso desde o ventre, concordando com Darwin, estamos em
constante estado de seleção natural e com isso, só os mais “fortes” sobrevivem,
isso para todos os campos, inclusive o religioso, não é assim a leitura do
Antigo Testamento, o melhor Deus ganha, basta ver os confrontos entre o Deus
dos Judeus e os demais.
Nos momentos de crise, o Sagrado
se faz presente na mente e no coração dos homens, como o grande e perfeito
cavaleiro alado que vem ao socorro do ser humano indefeso e incapaz de se
salvar. A humanidade em todas as eras aprendeu a compor esta narrativa do sagrado
e com isso, desenvolveu nela um eterno sentimento de pedinte do divino,
passamos nossa história mendigando a atenção deste ser supremo e desenvolvemos
nosso relacionamento com ele à partir destas necessidades, com isso, o ser
humano se tornou parasitário dos favores do Sagrado, incapaz de desenvolver
algum tipo de relacionamento existencial com ele.
Muitos devem ter parado de ler o
que acabei de escrever, por simplesmente discordarem, mas vamos um pouco além e
pergunto: Quantas vezes conseguimos parar em nossas orações sem pedir ou sem
nenhum sentimento de pedinte diante deste relacionamento com o Sagrado? Quantas
vezes ficamos diante dele, simplesmente pelo anseio de contemplação? Quantas
vezes, em nossas rápidas orações, simplesmente pedimos a mais banal das coisas
e não tecemos algum diálogo além do quero, peço?
Posso ir além com mais perguntas,
entretanto, estas pequenas que fiz, esquadrinham o perfil de ser que somos,
meros consumidores do Sagrado, vamos às nossas comunidades, pois esperamos, mesmo
que inconscientemente alguma coisa dEle. Pois é justamente na necessidade que nos
deparamos com nossa finitude, ante ao infinito, daquele amanhã que nunca chega,
nossas incertezas e pedir, esperar algo em troca, nos dá a segurança no futuro.
Quando somos atendidos,
espiritualizamos, dizemos que foi Deus, quando não somos, espiritualizamos,
afirmando que não é hora e por aí vai, no sentido de dar sentido ao anseio no
amanhã. Vocês devem estar pensando que perdi a fé, não, não perdi a fé, apenas
estou esquadrinhando outra perspectiva do sagrado, ante ao meu momento de
crise.
Estou num estado de ousadia e não
medo, pois poetas e teólogos ousam às vezes sobre suas perspectivas deste
Sagrado, Jesus também fez isso, quando na ânsia triunfalista de ter solucionado
os seus problemas, o povo esperava que Cristo prometesse mundos e fundos em
troca de fidelidade, na verdade o que ele acabou prometendo, gerou mais
insegurança que certeza, um paraíso para um futuro incerto. Porém, ele fez algo
que nenhum religioso fez, a esperança no consolo.
Jesus criou uma imagem de um Sagrado
que não resolve os problemas, mas caminha ao lado com eles, tanto que em
diversas falas Cristo utiliza a adversidade para mostrar o alento sagrado e não
a intervenção dEle para simplesmente resolver o problema, tanto que falou das
aflições do mundo, teve a sua própria oração frustrada ante a possibilidade da
morte, por outro lado, teve o auxílio de um pai que esteve ao seu lado até o
fim. Não acabou com todas as mazelas que sofriam, apenas deu um fogo ao coração
dos homens que ninguém havia feito, o fogo do amor, que incendia e dá
direcionamento à vida.
Do mesmo modo que colocamos toda
maldade do mundo nas costas do diabo, também fazemos isso com todos os
problemas e soluções, quando na verdade, este mundo foi criado para nós e com
isso, precisamos ter ousadia de viver nele. Podem estar me tachando de gnóstico
e etc, não me considero tal, apenas estou tentando assumir minha
responsabilidade neste mundo e não me deixando apático ante minhas
adversidades.
Crescemos na perspectiva de um
Sagrado que tudo resolve, tanto que apostamos todas as nossas fichas nisso, nos
deixamos paralisados esperando que nos venha como num insight a situação
plenamente resolvida. Às vezes penso que nossa cristologia é um grande
restaurante e este Sagrado se tornou o garçom, fazemos o pedido, ele diz se tem
ou não na cozinha, se não tiver, pedimos outra coisa, ele traz e depois de
saciados, pagamos a conta e damos a gorjeta ao garçom, 10% da conta.
Nestes últimos tempos, tenho
procurado ressignificar este sagrado, deixando-o mais belo, pelo pensamento da
poesia e menos funcional, se é certo ou errado, não sei, faz tempo que deixei
esse maniqueísmo definido, esse positivismo teológico, mesmo porque, ao ler sua
literatura, este Numinoso é desenhado por seus autores, sem definições
concretas, pois atua no limiar da criação e da destruição, da vida e da morte,
então, não consigo definir como e o quê pensar deste Sagrado, apenas sigo,
pensando que ele ama e caminha junto, apesar de tudo...
Paz e bem
Paz e bem







